Hoje quis fazer uma narrativa.
Tenho ouvido poucas histórias, demasiado consumido pelo acelerado tiquetaquear do dia-a-dia obstruído. Tenho saudades do tempo das histórias, do tempo em que me sentava durante horas a falar, a observar, a ‘absorver mundo’.
As escolhas que fazemos, e as vitórias que com elas conseguimos, às vezes parecem pouco mais que prémios de consolação. O que deixamos para trás, os lugares que deixamos em função das escolhas feitas, isso, o que abandonamos, às vezes seria mais que qualquer troféu, que qualquer feito memorável. Entender que, depois de ter ganho tantas vezes, os campeonatos mais importantes continuam todos por vencer, é relativamente inquietante.
Evitar a frustração pode ser difícil. Resignar-nos à insignificância das nossas taças e medalhas pode ser chocante, mas é neste pranto de decepções, nesta teia nostalgico-dramática, que podemos chegar a uma conclusão brilhante: ainda temos tempo para outros feitos, outras marchas triunfantes, outras histórias para contar.
Crescer é isto também. Reconhecer que algumas vitórias afinal foram pequenas quando nos pareceram gigantes, que algumas lutas eram afinal fáceis quando nos pareceram uma corrida pelo caminho mais custoso e acidentado de sempre.
Não sei se estou preparado para crescer, reparo agora. Tinha pensado que isto já estava tudo feito! Afinal a grande luta será ser capaz de disputar um desafio que nunca quis, chegar ao topo numa modalidade que nunca foi a minha.
Não consegui contar uma estória. E, merda para isto, só me saem metáforas manhosas sobre redomas, ambientes fechados e estufas. Tanta coisa só para poder explicar que estou a ficar burro e de vistas curtas. E, falha número dois, toda a gente já o sabia – até eu já o sabia.


